Infraestrutura e crescimento: o gargalo que o Brasil não resolve

Há uma certa ironia no fato de que o Brasil, um dos países com maior potencial agrícola e mineral do mundo, gaste uma parcela desproporcional de sua riqueza apenas para mover produtos de um ponto a outro do território. O custo logístico brasileiro é um dos mais altos entre as economias emergentes — e isso não é um acidente.

Décadas de subinvestimento em rodovias, ferrovias, portos e aeroportos criaram uma infraestrutura que não acompanhou o crescimento da economia. O resultado é um "custo Brasil" que corrói a competitividade das exportações, encarece os produtos para o consumidor final e reduz a margem das empresas que operam no país.

Os números do atraso

O Brasil investe em infraestrutura cerca de 2% do PIB por ano — menos da metade do que economistas recomendam para um país em desenvolvimento que precisa modernizar sua base física. Para comparação, a China investiu, em seu período de maior crescimento, entre 8% e 10% do PIB em infraestrutura. Mesmo países com renda per capita similar à brasileira investem proporcionalmente mais.

O déficit acumulado é enorme. Estima-se que seriam necessários investimentos da ordem de R$ 2 trilhões ao longo de uma década apenas para trazer a infraestrutura brasileira a um nível minimamente competitivo. Com as restrições fiscais atuais, esse montante está fora do alcance do setor público — o que torna o setor privado e as concessões indispensáveis.

As concessões como solução parcial

O modelo de concessões avançou nos últimos anos, com leilões de rodovias, ferrovias e portos que atraíram investidores nacionais e internacionais. Os resultados têm sido mistos. Em alguns casos, as concessões melhoraram significativamente a qualidade da infraestrutura e reduziram custos. Em outros, os contratos foram mal desenhados, gerando conflitos entre concessionários e governo que atrasaram obras e aumentaram custos para os usuários.

A ferrovia é talvez o exemplo mais emblemático do atraso brasileiro. Enquanto países como os Estados Unidos e a Austrália movem a maior parte de suas cargas por ferrovias — o modal mais eficiente para longas distâncias —, o Brasil ainda depende excessivamente de rodovias, que são mais caras e mais poluentes. O projeto da Ferrovia Norte-Sul, que deveria integrar o Centro-Oeste ao litoral, acumula décadas de atrasos.

Perspectivas

O programa de investimentos em infraestrutura anunciado pelo governo federal para o período 2025-2028 prevê aportes significativos, mas a experiência histórica recomenda cautela. A capacidade de execução do setor público brasileiro é limitada, e os projetos de infraestrutura frequentemente enfrentam obstáculos ambientais, fundiários e burocráticos que atrasam o cronograma e aumentam os custos.

O que parece claro é que, sem uma melhora substancial na infraestrutura, o Brasil continuará operando abaixo de seu potencial econômico. É um gargalo que o país conhece bem — e que, por razões que combinam restrições fiscais, problemas institucionais e falta de prioridade política, ainda não conseguiu resolver.

Luciana Costa Especialista em infraestrutura e logística. Consultora independente com experiência em projetos de concessão no Brasil e na América Latina.