Desigualdade regional no Brasil: uma análise dos dados do último censo

O Brasil é um país de contrastes que resistem ao tempo. Os dados do Censo Demográfico de 2022, divulgados pelo IBGE ao longo dos últimos anos, confirmam o que muitos pesquisadores já suspeitavam: a desigualdade entre as regiões brasileiras permanece profunda, apesar dos avanços registrados nas últimas décadas.

O Nordeste, região mais populosa do país depois do Sudeste, ainda apresenta indicadores socioeconômicos significativamente abaixo da média nacional. A renda per capita média de um habitante do Nordeste corresponde a cerca de 55% da renda per capita de um habitante do Sudeste. Essa diferença, que se mantém há décadas, tem raízes históricas complexas — mas também reflete escolhas de política econômica que privilegiaram certas regiões em detrimento de outras.

"A desigualdade regional brasileira não é um fenômeno natural. É o resultado acumulado de décadas de investimentos públicos concentrados e de uma estrutura tributária que favorece estados com maior capacidade de arrecadação."

O que os dados mostram

O Censo 2022 trouxe algumas surpresas positivas. A taxa de analfabetismo caiu em todas as regiões, com reduções mais expressivas no Norte e Nordeste. O acesso à internet, que era um marcador claro de desigualdade há dez anos, se democratizou de forma acelerada — em parte graças à expansão dos planos de dados móveis e ao programa de conectividade do governo federal.

Por outro lado, os dados sobre saneamento básico revelam um quadro ainda preocupante. Mais de 30% dos domicílios no Norte do país não têm acesso a esgotamento sanitário adequado. No Nordeste, esse percentual ainda supera 20%. São números que têm impacto direto sobre a saúde pública e sobre a produtividade das populações afetadas.

As políticas que funcionaram e as que não funcionaram

A expansão do Bolsa Família — e de seu sucessor, o Auxílio Brasil, depois renomeado novamente — teve impacto mensurável na redução da pobreza extrema nas regiões mais vulneráveis. Os dados do Censo mostram que o percentual de domicílios em situação de pobreza extrema caiu de forma mais acentuada nas regiões Norte e Nordeste entre 2010 e 2022.

Já as políticas de desenvolvimento regional baseadas em incentivos fiscais para atrair empresas tiveram resultados mais ambíguos. A Zona Franca de Manaus, por exemplo, gerou empregos formais e renda na capital amazonense, mas não conseguiu irradiar desenvolvimento para o interior do estado. O modelo de polos industriais isolados, sem integração com a economia local, tem limitações estruturais que os dados confirmam.

O que esperar dos próximos anos

A agenda de desenvolvimento regional ganhou novo impulso com os investimentos em infraestrutura previstos no programa de aceleração do crescimento. Mas os especialistas alertam que obras de infraestrutura, por si só, não são suficientes. É preciso combinar investimento físico com melhoria na qualidade da educação, fortalecimento das instituições locais e políticas de crédito que alcancem os pequenos empreendedores nas regiões mais distantes.

O Censo 2022 oferece uma fotografia detalhada do Brasil real — com suas conquistas e suas contradições. Usá-la como base para políticas públicas mais eficazes é o desafio que está posto para os próximos governos.

Ana Ferreira Pesquisadora em economia regional e desenvolvimento. Doutora pela UFMG, colabora com a Vero Capital Digital desde 2025 com análises baseadas em dados públicos.